sábado, 13 de fevereiro de 2016

AMOR BREJEIRO

            Foi na boca da noite de um inverno brabo que no terraço do casarão Otacílio me contou toda esta historia que agora passo pra frente. Chovia todas as chuvas da vida numa só tarde, o tempo estava cinzento e úmido, e aquele cafezinho que tomávamos não adiantava de nada pra esquentar o corpo, muito menos o espírito; foi quando ele, o dono da casa gritou:
            –Mariinha, trás aquela pinga especial que eu escondi no quarto, o compadre ta morrendo de frio. Avie logo que estamos necessitados.
            Depois do primeiro trago, quando o corpo entrou em ebulição, e a vida salpicou nos olhos, que ele começou a contar sua resenha.
Eu era muito moço ainda, não tinha nem feito vinte anos, e, meu amigo,  para sofrer qualquer idade é ruim, seja ela pequena, media ou grande; amargor que se espicha e dói no corpo todo. Uma tristeza só!
            Naquele domingo de tardezinha, quando botei os olhos nela, fiquei cego; cego de amor, ou foi de paixão? Sei não! Estava tão cego da vista que só conseguia ver  com os olhos da emoção, até mesmo aquele fio de cabelo preto e lustroso que fazia cócega no nariz dela. A dentadura era uma cascata de alegria, o tempo todo rindo, como se a vida fosse só dela. Morena de olhos grandes e negros como a noite mais escura, corria de um lado para outro, brincando com suas amigas na Praça da Matriz. Criança? Não mais, embora ainda não soubesse de seus encantos.
            Demorou três domingos até a coragem se enraizar no meu espírito e eu conseguir matar os dez passos de distancia dela. Cheguei devagar, bem de mansinho para não assustar a borboleta voadora que existia nela. Eu não disse nada: a coragem, aquela enraizada, parece que morreu de sede, e não deixou que eu falasse nem mesmo um _boa tarde moça!
            Foi ela quem, me cubando de baixo pra cima, disse:
–Boa tarde moço, quer alguma coisa? Se quiser, fale logo e vá embora, to ocupada com minhas amigas. Tá vendo não, é?
            –Quero nada não, só queria lhe conhecer...
            –Então quer, ora! Eu sou Lindalva e você?
            –Sou Otacílio, a seu dispor. Faz um bocado de domingos que eu lhe admiro, e não tenho coragem para me apresentar, até que disse: _de hoje não passa, e aqui estou.
            –E por que tanto interesse, posso saber? Minhas amigas estão morrendo de rir, ta vendo?
            –Podem rir â vontade, ouvir sua voz, pra mim, é um mata borrão pras zombarias. Não me–ofendem em nada.
            A conversa continuou até que a noite apagou o dia. Eu sabia que ia me deitar, mas não conseguiria dormir; tinha a noite toda para passear com ela pela cidade inteira, até cairmos de cansados na beira da esperança. Eu nunca tinha me enfeitiçado daquela maneira por nenhuma mocinha que conheci na vida.
Eu era um rapagão alto, bem fornido, de sorriso franco, ou melhor, uma gargalhada estrondosa, que chamava a atenção de todos e, não posso deixar de acrescentar, muito trabalhador.
            Lindalva ainda era um botão de rosa, com seus 16 anos de idade. Os encontros dos domingos foram amiudados para os dias da semana. Primeiro um dia, depois dois, três e por ultimo a semana toda, inclusive o domingo.  
Depois de mais de um ano de encontros e desencontros, encontrei-me num domingo qualquer, caminhando pela beira do rio com meu matulão cheio de amor; só estava esperando descobrir um pedaço mais fundo pra poder jogar tudo aquilo que trazia nas costas, na correnteza do rio. Ela tinha me dito que só queria ser minha amiga. Eu não agüentei, quem podia agüentar tamanha cipoada no lombo? O que eu mais queria era que o rio levasse pra bem longe, todo o meu amor e meu sofrimento, meu desconsolo, e minha tristeza. Meu depósito de lagrimas estava seco, fazia um tempão. Chorei toda a água que tinha pra chorar e ela não mudou de idéia, então pra que continuar? Parei de chorar pra não fazer papel de besta.
            Toda vez que voltava pra cidade, fazia de tudo para não vê-la; de que adiantava olhar para ela e não poder abraçá-la, beijá-la, amá-la? Era melhor vazar os olhos pra mandar pra bem longe a tentação de enxergar meu amor; furar os ouvidos para não ouvir a voz da minha patativa, cortar o nariz pra não cheirar o cheiro de  minha felicidade.
            De vez em quando dava uma pausa no trabalho para secar o suor da testa com a manga da camisa, e depois tomar um gole d’água pra molhar as entranhas esturricadas. Era quando escutava uma voz fina chamando-me com um sussurro. Olhava pra baixo e via meu matulão cheio de amor, pendurado na parede do coração e ele, o amor, escanchado na ponta balançando as pernas, como menino travesso e teimoso. Naqueles momentos tínhamos uma conversa que não me agradava de jeito nenhum. O amor dizia:
            –Sua vontade é fraca, foi vencida pelo tempo, a espera foi mais forte e você sucumbiu perante o desânimo; arrodilhou suas esperanças, deitou a cabeça sobre elas e dormiu o sono da derrota. Vencido pelo desespero e desesperança você desistiu da vida, da luta e da pele fina da vitoria.  Eu não! Quem pode vencer qualquer batalha contra o amor?  Sou persistente e imbatível, indomável e guerreiro audaz. Esteja pronto para receber-me quando eu vencer esta guerra que já está perto de terminar. Esta foi a última conversa que tive com ele, o amor, faz pouco tempo.
            De madrugada acordava com um  comichão na orelha e já sabia que era a saudade me convidando para dar um passeio na Praça da Matriz. _Isto não é hora de passear na praça, é muito tarde e não tem ninguém por lá, dizia baixinho, e ela, a saudade respondia com toda sua sabedoria:_Tem sim! Tem o espectro de Lindalva procurando o que ela sabe que perdeu, mas não consegue saber, ainda, o que é.
            –E o que foi que ela perdeu?
            –Ora! Ela perdeu o seu amor!
            –Está muito enganada minha amiga saudade, ela nunca perdeu nem perderá o meu amor. Meu amor por ela é eterno e infinito “enquanto durar todas as eternidades”. Só falta ela entrar na 1ª Classe do meu aconchego, do meu carinho, e de todas as minhas atenções. O infinito é pequeno para guardar o que sinto por ela. O firmamento é uma pequena caixa onde escondo um pedacinho dos meus sentimentos.
            A saudade dizia:
–Meu velho amigo, ela não sabe o que você tem guardado para ela desde que a conheceu; ela pensa que seu amor é um peão que gira, gira e arria no chão cansado de suplicar por um hausto de ar puro para continuar sobrevivendo. Otacílio, ela apenas imagina o tamanho da mansão que você tem para guardar seu amor por ela. Não desista nunca...
Nos meus sonhos eu a beijava sofregamente, com cuidado e lascívia, com os olhos fechados e o espírito aberto. O amor fremia em todo o meu corpo.
            Era assim que acontecia: de vez em quando o amor chegava montado no lombo da saudade para me fazer uma visita. Não escolhia dia nem hora, era abusado e mandão. Eu só tinha que abaixar o cogote e aceitar a visita de bom grado. Acho que gostava daquela intromissão profana,  que entrava no meu juízo sem pedir licença. 
                        Lindalva, com olhos fundos e a pele esmaecida, caminhava pelas ruas como uma sonâmbula, como um ente, despida de vigor, de força, de vida. Sua coragem estava escondida no beco da covardia e vergonha. Ela estava arrependida de ter trocado amor puro e saudável por uma simples amizade descolorida e insossa. Arrependimento não resolve nenhuma situação, por mais simples que seja. Há que partir para a ação, pedir perdão, reconhecer o erro, brandir a coragem de ser humilde, e entregar-se de corpo e alma, jogando no abismo do desconhecido a vaidade, o orgulho, e a vergonha.
            Lindalva só precisava dar o primeiro passo, que nem mesmo era um passo; não passava de um olhar... olhar  pra mim com a suplica pendurada nas pálpebras, como que pedindo desculpa pelo erro, pelo desperdício de tempo recheado de duvidas, e da anarquia do amor vilipendiado.
            Um dia...Ah! Um dia... que dia, meu amigo... foi na mesma praça do primeiro congelamento de olhar... meu olhar congelado pela cumplicidade que percebi entre nós; naquele momento mágico já sabia que havíamos nascido um para o outro; para nossa união ser consumada, só faltava a oração, a comunhão de espíritos, o selo da eternidade.
–Foi assim que tudo aconteceu, e hoje estamos aqui, eu lhe contando a história de minha vida pra você, meu amigo “consciência”.
História de amor verdadeiro não pode se transformar em manchete de jornal, em um causo contado nos botequins de ruas espúrias, não pode ser verbalizado por bocas pecadoras.
A “consciência” é o sacro amigo da pureza, e da prudência.







Anchieta Antunes
Copy right
Gravatá – 11/06/14.

Acadêmico Correspondete da AELE

Um comentário:

  1. Em nome do Instituto de Estudos Históricos, Artes e Folclore dos Bezerros, na qualidade de Presidente-fundador parabenizo por este belo trabalho.
    Com um tríplice abraço fraterno do
    Ronaldo J Souto Maior
    ronaldosoutomaior@gmail.com

    ResponderExcluir